domingo, 12 de março de 2017

1972-03-00 - Estrela Vermelha Nº 11 - PCP(m-l)

Em Defesa do Marxismo

BALANÇO DUMA POLÉMICA
Nos últimos meses, travou-se nas páginas da revista "Seara Nova" uma polémica acerca dos fundamentos filosóficos do leninismo (na "Seara Nova” denominado "ulianovismo", por motivos de censura,) na qual se defrontaram a linha marxista-leninista e a revisionista, quer na tonalidade kruchtcheviana quer na liberal intelectualista. Esta polémica assume certa importância por ter desmascarado os métodos de acção do grupo liberalóide da "Seara", a sua encarniçada oposição ao leninis­mo e ao socialismo científico, e por, no terreno legal, se haver empunhado a defesa do marxismo-leninismo, desmistificando as invenções dos seus inimigos.

UMA ESTUDADA MANOBRA PARA O DESACREDITAR LENINISMO
A polémica teve origem num comentário da redacção da "Seara” ao livro "II pensiero di Ulianov" do italiano L. Gruppi, publicado no nº de Março de 1971. Nele o comentarista sea­reiro apadrinha a "descoberta" do italiano que retalha ao meio a obra de Lenine considerando-a "mecanicista" e incompatível com a sua "acção política". (Há uns anos, a intelectualidade que vive à sombra da burguesia lançou idêntico ataque à obra de Marx, a propósito dos seus primeiros trabalhos e à de Staline a propósito das obras. "Os Problemas Económicos do Socialismo na U.R.S.S." e "O Marxismo em Linguística").
«No número de Junho seguinte aparece uma réplica a defender a unidade do pensamento leninista. Esta réplica não era consequente, pois apoiava-se nos ideólogos kruchtchevianos, os mesmos que, sob a batuta do renegado Kruchtchev, retiraram ao leninismo o que ele tinha de científico, de vivo e revolucionário e o adaptaram à ideologia da nova burguesia soviética e do social-imperialismo. Veio a saber-se depois que esta brilhante peça aparecida em nome de Manuel J. A. Teixeira, exprimia o ponto de vista do partido revisionista, sendo da autoria dum indivíduo que pouco tempo depois abandonava a clandestinidade e, caso único, rendia-se às forças da burguesia fascista. Ao lado desta meia-réplica aparecia então a primeira parte, depois continuada no número de Julho, do longo ataque dirigido ao leni­nismo da autoria do redactor da "Seara Nova" Sottomayar Cardia. Tomando como pretexto a obra "Materialismo e Empiriocriticismo", o seareiro compraz-se nesses dois longos artigos a exibir o seu ódio ao materialismo dialéctico e a Lenine, atribuindo à sua obra todos os vícios idealistas.
"Teixeira", ou seja o revisionista "defensor" do leninismo, não deu qualquer resposta a esse rancoroso ataque ao marxismo-leninismo, deixando concluir que a sua intervenção, combinadamente ou não, foi pretexto para o exibicionismo das teses seareiras visando a destruição do materialismo dialéctico e do leninismo.
Os objectivos dos representantes da "Seara" e dos seus cúmplices foram, porém, contrariados com a réplica em defesa do marxismo e da contribuição que lhe trouxe Lenine. Os sea­reiros fizeram o possível por apajeá-la demorando a sua publicação, retirando-a para a secção de "correspondência" em vez de a apresentar no seguimento da polémica, e fazendo-a acompanhar de comentários caluniosos destinados a afastar o leitor (Ver os números de Novembro, pp. 9-16, e de Fevereiro, pp.42-47). E só a não atiraram para o cesto dos papéis por temerem um descrédito ainda maior, que nessa altura se somava por um enorme desinteresse pela revista, que foi queimada em manifestação pública. A comprovação dessa posição mal-intencionada e anti-democrática — tão oposta ao que declaradamente a revista pretende ser — revela-se nos comentários da redacção e do redactor publicados no número de Fevereiro, onde esses senhores se crêem ridiculamente os únicos detentores da sabedoria filosofal e não consentem que o seu opositor lhes responda no mesmo lugar. Mais uma vez, porém, os cálculos lhes saíram furados, e melhor se ficou a conhecer os métodos desses animadores e entusiastas das "campanhas eleitorais", desses falsos adeptos do socialismo, desses politiqueiros liberais que recusam a ideologia do proletariado e temem a sua revolução como o diabo teme a cruz.

A FRENTE COMUM COM O REVISIONISMO ARRASTA A «SEARA» PARA O ANTI-SOCIALISMO
A "Seara Nova" nunca foi uma revista proletária fundada no materialismo dialéctico. Mas, no contexto português, dada a inexistência da liberdade de imprensa, com base no idealismo crítico sergiano, a actividade ideológica da "Seara Nova" assumia um papel progressista, chegando a defender a construção do socialismo (referimo-nos ao socialismo científico da então socialista União Soviética e não ao socialismo pequeno-burguês sergiano). Não há dúvida que dentro do seu corpo redactorial e das personalidades que compunham o grupo seareiro, ao longo dos tempos, houve sempre quem alardeasse um idealismo mais descabelado e até indivíduos francamente reaccionários, como Augusto Casimiro, Câmara Reis e outros. Duma maneira geral, este compromisso ideológico traduzia a aliança, declarada ou não, da social-democracia com o proletariado frente à burguesia fascista dominante.
Mas, quando o movimento operário pôs a nu o oportunismo revisionista e as forças marxistas-leninistas se reagruparam em novas bases, os searei­ros preferiram a aliança com os revisionistas, seus aliados naturais. No plano ideológico, isso levou-os a desprezar alguns dos mais importantes acontecimentos da nossa época, tais como a restauração capitalista operada na U.R.S.S. e na maioria dos países de Leste, e a revolução cultural proletária na China. Claro que, não assimilando cientificamente estas experiências, o grupo seareiro ia dar lugar a que a revista assumisse posições anti-progressistas, como foi o caso, ultimamente, dos comentários políticos acerca da invasão da Tchecoslováquia pelo social-imperialismo soviético, da revolta do proletariado polaco que levou à queda de Gomulka, de repetidos artigos sobre a política chinesa, etc.
A "Seara" encontra-se hoje à beira dum dilema condicionado também pela evolução da nossa sociedade, que, desenvolvendo-se, criou uma base social mais vasta para a social-democracia. Ou bem ela assimila a evolução dos principais acontecimentos mundiais dos últimos anos e acompanha o movimento das grandes massas trabalhadoras; ou bem ela se enquista no "socialismo" amarelo da social-democracia, a reboque dos revisionistas modernos, e vira definitivamente as costas ao movimento operário.
O ataque agora virado contra Lenine foi igualmente estimulado pela ideologia revisionista Kruchtcheviana, a qual, declaradamente, mutilou o marxismo-leninismo dos desenvolvimentos que lhe trouxeram Staline e Mao Tsetung — por cima dos quais o seareiro S. Cardia também passa — e impulsionou a revisão do marxismo-leninismo até à sua transformação completa. Mas a inspiração do se­areiro deriva ainda de revi­sionistas intelectualistas do género Althusser ou Garaudy e de outras correntes do pensamento burguês, como se mostrou ao longo da polémica.
Para garantir o crédito das forças do socialismo, o searei­ro dirigia essa estapafúrdia revisão do leninismo em nome do próprio materialismo dialéctico(!) mas isso revelou-se logo como uma habilidade saloia que nem entre cegos resultava. O marxismo é um guia para a acção é um método de luta, uma ciência que se tem de aplicar a cada situação concreta. Daí que seja errado transpô-lo mecanicamente duma situação passada para outra presente, da sua aplicação na Rússia ou na China para Portu­gal, etc. Neste processo de inserção do marxismo na realidade, na actividade prática, dá-se, por consequência, um desenvolvimento, um enriquecimento do próprio marxismo. Era com base neste carácter dialéctico do materialismo que o seareiro pretendia justificar a sua revisão. Contudo, a sua "aplicação criadora" não passava de fogo de vista. Com efeito, como se verá mais à frente, o seareiro não podia visar uma tal aplicação criadora do marxismo porque ele rejeitava-lhe simplesmente, os seus principais fundamentos: o conceito materialista dialéctico de matéria, de sensação, e de natureza; a distinção entre idealismo e materialismo; a relação entre o idealismo e a religião; etc. Em vez da sua aplicação, ele fazia-lhe uma total revisão.
A refutação do seu intento foi enviada à "Seara" e saiu publicada nos números de Novembro de 1971 e Fevereiro último, onde se puseram ao léu as suas principais tergiversações do pensamento de Lenine e do materialismo dialéctico em geral. Devido à censura, teve-se de usar certos cuidados de linguagem não nomeando os clássicos do marxismo pelo seu nome, usando materialismo moderno em vez de materialismo dialéctico assim como marxismo-leninismo, ulianovismo por leninismo, etc.

A REFUTAÇÃO DAS REVISÕES SEAREIRAS
Concretamente, o seareiro partia do pretexto de que Lenine, em "Materialismo e Empiriocriticismo", defendia concepções filosóficas que entravam em contradição com o materialismo dialéctico. Mas isso não passava dum álibi pois a concepção de materialismo dialéctico do seareiro é uma salada de conjecturas sem pés nem cabeça. Para não nos alongarmos aqui, reproduzimos a síntese dos principais pontos que o seareiro visava no leninismo em paralelo com a posição de Lenine em "Materialismo e Empiriocriticismo" — que foi a obra que o seareiro pôs directamente em causa — e com as conclusões da refutação que enviámos à "Seara". No número de Fevereiro da mesma revista algumas dessas concepções foram de novo desenvolvidas em contestação de breves comentários do seareiro, que entretanto tinha perdido o pio, ensaiando uma manobra de retirada, contrariada esta por nova refutação (nº de Fevereiro) das suas novas alegações e da sua prosá­pia. (As refutações eram assinadas Vasco Q. Fernandes).
Eis a síntese dos principais assuntos da polémica:
1. Em "Materialismo e Empiriocriticismo" (1) Lenine (2) sustenta: A questão da relação entre o pensamento e o ser, entre o espírito e a natureza, é a questão fundamental de qualquer filosofia; é ela que traça a demarcação entre o materialismo e as diversas formas de idealismo.
O seareiro pretendia: Nem para Lenine nem para o materialismo dialéctico a "questão fundamental da filosofia" é importante; a demarcação entre materialismo e idealismo não tem sentido, pois há inúmeras variedades de idealismo, assim como de materialismo, que nada têm de comum entre si.
E demonstrou-se que o problema da relação entre o pensamento e o ser foi considerado por Engels como a questão fundamental da filosofia: é que todos os grandes pensadores materialistas dialécticos, incluindo Lenine, acordam a esta relação uma importância fundamental; S. Cardia afasta a questão porque quer esbater, destruir a distinção radical entre materialismo e idealismo.
2. Lenine sustenta: A sensação dá-nos uma imagem, uma cópia do mundo exterior; ela reflecte na consciência a realidade objectiva, o mundo exterior; ela é a tónica origem do conhecimento.
O seareiro pretendia: A sensação não pode reduzir-se a uma simples cópia ou imagem da realidade; ela não pode ser a única origem do conhecimento.
E demonstrou-se que a teoria da sensação contida em “Materialismo e Empiriocriticismo" concorda plenamente com a do materialismo dialéctico e supera a concepção sensualista; na linha do idealismo de todos os tempos, o seareiro pretende que a sensação não reflecte a matéria e que não é a origem única do conhecimento, princípios básicos do materialismo.
3. Lenine sustenta: As ideias reflectem a realidade exterior e são fruto da elaboração mental a partir das percepções.
O seareiro pretendia: Lenine reduz as ideias às sensações; Lenine é "empirista realista", pois considera que as leis dadas pelo conhecimento reflectem as leis da matéria.
E demonstrou-se que o sea­reiro deforma a teoria das ideias de Lenine em "Materialismo e Empiriocriticismo", negando que, para Lenine, as ideias sejam o produto da elaboração mental a partir das percepções; e, como todos os idealistas, não aceita a teoria materialista segundo a qual as ideias, as leis, reflectem as leis da natureza.
  4. Lenine sustenta: Se não se admitir rigorosamente que o conhecimento reflecte a realidade objectiva, se não se segue, em teoria do conhecimento, um materialismo consequente, abre-se a porta ao fideísmo e às superstições religiosas.
O seareiro pretendia: Nem o idealismo nem o realismo em teoria do conhecimento nada têm a ver com a crença na religião.
E demonstrou-se que Lenine em "Materialismo e Empiriocriticismo" e os materialistas consideram que as superstições religiosas e o clericalismo se barricam por trás do idealismo em teoria do conhecimento; por isso lutam contra eles; S. Cardia dá as mãos à reacção clerical dizendo que a fé em Deus nada tem a ver com o idealismo e a teoria do conhecimento.
5. Lenine sustenta: A realidade objectiva, a matéria, é o dado primário; o pensamento e todas as manifestações do conhecimento individual ou colectivo são um dado derivado, secundário, que reflecte a realidade objectiva, a matéria.
O seareiro pretendia: Não é só a matéria que dá lugar à sensação, ao conhecimento; a experiência humana, o conhecimento, não é um derivado da matéria, da natureza; afirmar isto é naturalismo.
E demonstrou-se que a teoria de "Materialismo e Empiriocriticismo" sobre a relação do conhecimento à realidade exterior concorda plenamente com a do materialismo dialéctico; é o seareiro que nega a própria base do materialismo e defende um ponto de vista idealista; não há sombra de naturalismo em "Materialismo e Empiriocriticismo".
6. Lenine sustenta: O mundo material é a única realidade existente; o nosso pensamento, a nossa consciência, não são mais do que os produtos dum órgão material, corpóreo — o cérebro.
O seareiro pretendia: Lenine opera uma "seccionarão bipolar do real: a natureza por um lado, a vontade, o conhecimento humanos por outro”; Lenine sofreu em "Materialismo e Empiriocriticismo" a influência do naturalismo de Engels.
E demonstrou-se que S. Cardia deforma a concepção de Lenine sobre a unidade da matéria, do ser; para o materialismo dialéctico e para Lenine em “Materialismo e Empirio criticismo", o conhecimento é um reflexo da realidade objectiva e uma forma (superior) da matéria; para atacarem o materialismo, certas correntes idealistas contemporâneas, como o seareiro, acusam Engels de naturalismo.
  7. Lenine sustenta: Em teoria do conhecimento, matéria significa realidade objectiva, abrangendo, por conseguinte, toda a realidade material incluindo a realidade social.
O seareiro pretendia: O naturalismo de Lenine leva-o, em "Materialismo e Empiriocriticismo", a nunca indicar a realidade social como característica da matéria.
E demonstrou-se que a realidade social está incluída no conceito de natureza, ser, mundo material, realidade exterior, etc., do materialismo dialéctico, que Lenine utiliza em “Materialismo e Empiriocriticismo"; o seareiro finge desconhecer o sentido destes conceitos e mutila uma citação de Lenine para justificar a sua tese.
8. Lenine sustenta: O conceito de matéria é a trave mestra do materialismo dialéctico; esta teoria não poderia aplicar-se correctamente sem se fundar nesse conceito.
O seareiro pretendia: O cal­ceito de matéria contido em "Materialismo e Enpiriocriticismo" não é “operacional" no domínio da teoria da ciência.
E demonstrou-se que o conceito de matéria usado por Lenine em "Materialismo e Empiriocriticismo" coincide com o de Marx; ele tem-se mostrado fecundo, quer no campo da ciência, quer na prática social; o exemplo de "operacionalidade” que S. Cardia dá do conceito é, pura e simplesmente, a sua deformação idealista.
Por aqui se vê que o objectivo do seareiro não consistia em superar alguma concepção eventualmente menos clara da célebre obra filosófica de Lenine, obra incomparável de denúncia e critica às mil e umas subtilezas das inúmeras correntes idealistas de começos do nosso século (as mais directamente visadas, o empiriocriticismo e o empiriocriticismo, pretendiam também passar pelo autêntico materialismo dialéctico), mas sim em tentar obscurecer e denegrir Lenine e a ideologia proletária, e contrapor-lhe uma mescla de idealismo adequado ao ideário social-democrata, que vegeta nesse lodo ecléctico.
O SEAREIRO AFUNDA-SE AINDA MAIS NO LODO ANTI-MARXISTA
Os últimos comentários do seareiro e da redacção da "Seabra" (Ver o número de Fevereiro, de 1972 pp. 42-47), embora confirmem o que se disse até aqui, merecem também uma resposta.
Os responsáveis da "Seara Nova", revelando-se perante todos, declaram publicamente que não lhes interessa e não autorizam a polémica com os defensores do materialismo dialéctico, deduzindo-se que os seus apelos à polémicasinha é reservado aos bem-pensantes que respeitam as regras do seu jogo, o academismo, a quem excita um pouco a curiosidade do público (fazendo aumentar as vendas da revista) mas não ousa ir até ao fim. Os seareiros esquecem que já lá vai o tempo em que a sorte do proletariado e a defesa dos seus interesses ideológicos estava dependente de compromissos de intelectuais liberais. E, se eles temem a clareza e inteireza da sua concepção do mundo, melhor é que a não procurem deformar e a deixem em paz. Que se divirtam entre si com as suas disputas de salão, mas que se abstenham de invocar os "erros" de Marx, Engels, Lenine, Staline ou Mao Tsetung.
Não vale a pena mostrar a gratuitidade das alegações anteriormente rebatidas do sea­reiro no que se refere aos assuntos já discutidos. Mostrou-se bem a raiz de tais confusões e a finalidade das mesmas deturpações do materialismo dialéctico. Ajunte-se agora à aludida gratuitidade a ausência de seriedade na discussão que, depois de todo um longo debate a provar o contrário, lhe faz descaradamente afirmar que não procura "atenuar a distinção materialismo-idealismo"! Há também a registar a sua confissão explícita da rejeição do materialismo dialéctico. Nem mais nem menos. O seareiro proclama: ”O marxismo caracteriza-se por ser uma concepção da sociedade e não uma concepção da natureza." S. Cardia levou tempo a decidir-se mas antes já se tinha visto que o seu "marxismo" era do que se talha em fatias, segundo o gosto de cada um. Para que andou com tantos rodeios para agora vir a esposar explicitamente uma concepção que anda tão longe da doutrina de Lenine — e hoje só seguida por idealistas incorrigíveis como um Sartre ou um Goldman — e, ao mesmo tempo, repisa a ideia de que adere ao que há de "essencial no pensamento e na linha de acção do marxismo-ulianovismo" (3)? Um "marxismo" sem dialéctica da natureza é o mesmo que uma casa sem alicerces. Tanto uma coisa como outra são imaginações puras. Com esta súbita revelação, porém, o seareiro deu mais uma importante achega para a total compreensão do seu intrincado e pessoalíssimo "marxismo", que a princípio se apresentava como uma poderosa hidra apressada a demolir Lenine e, afinal, ao pretender demolir o próprio marxismo, se vem a revelar duma impressionante fraqueza.
Pelo que se deduz das suas insinuações, e concorda com a sua confusa xaropada revisionista-idealista, o seareiro não só afasta a concepção dialéctica da natureza da sua concepção de marxismo-ulianovis­mo" como o amputa ainda dos desenvolvimentos que lhe trouxe Staline e Mao Tsetung (Ver "Seara Nova", número de Fevereiro de 1972, p.46). E era fundado nesta manta de retalhos que o destemido seareiro se propunha corrigir Lenine...
No mesmo lugar, ele avança ainda duas novas ideias, fruto das mesmas conjecturas, que só valem uma simples referência por ser evidente e declarada a sua oposição ao marxismo-leninismo enquanto concepção do mundo una e em desenvolvimento, que não pode seccionar-se em partes sem se adulterar.
Para procurar uma escapadela, o seareiro vem agora sustentar que há duas concepções de materialismo dialéctico: "a filosofia do marxismo" (que ele se atribui), e "o sistema filosófico antecipado por Engels na sua última fase (...), retomado por Ulianov em “Materialismo e empiriocriticismo”, compendiado por Estaline no opúsculo “Materialismo dialéctico e materialismo histórico"(4) etc., etc. Eis a barbaridade a que chega a sua lógica oportunista! Desde o início se tinha indicado que o objectivo último do seareiro era desagregar o marxismo e substituí-lo pela sua amálgama de conjecturas. Pois aí temos a prova provada do que se previa. O seareiro afasta do marxismo-leninismo tudo o que não quadra bem com a "acção política" da social-democracia e diz: "isto é ’a filosofia do marxismo"'! Depois apelida o resto de "escolásticas" e julga assim ter desfeito o demónio que o persegue. O pior é que a realidade profunda pouco se agita com tais piruetas. Os verdadeiros marxistas sabem que elas são um aspecto da luta que a burguesia lhe opõe. Eles sabem que o marxismo-leninismo se cria nessa mesma luta e, desde que Marx e Engels lhe traçaram as bases, tem sido sempre assim. É também um facto histórico que, a social-democracia, desde que, por altura da Primeira Grande Guerra, virou para o campo do compromisso com a burguesia, adapta o marxismo às suas conveniências de classe, retirando-lhe tudo o que ele tem de revolucionário, tudo o que possa fazer medo à burguesia. Eis porque não espanta o propósito do seareiro, perfeitamente de acordo com o oportunismo político da C.D.E. ou do moribundo M.O.D. E a ninguém deve enganar o tipo de "marxismo” que o inspira por essas andanças eleitoralistas.
Não o pode também salvar da tentativa de rever e corrigir Lenine e o marxismo-leninismo a brilhante definição que nos dá de “revisionismo", que (ao contrário do que procura fazer crer) é o contrário do desenvolvimento criador do marxismo. Viu-se anteriormente que, sem se confundir totalmente com a ideologia dos revisionistas kruchtchevianos, o falso marxismo do seareiro pretendia, do mesmo modo, rever e corrigir os fundamentos da teoria de Marx, como tem sido preocupação da social-democracia desde Bernstein — que lhe deu o nome — para cá. E, ainda contrariamente ao que declara o revisionista seareiro, o revisionismo não se manifesta só na questão da "luta de classes" e no campo político, (como se o resto não fosse luta de classes...) mas nos mais diversos ramos do conhecimento e da acção política e social. Num artigo de 1908 ("Marxismo e Revisionismo") Lenine analisava as concepções dos revisio­nistas da época difundidas na teoria política, na filosofia e na economia política. E hoje, com o domínio da ideologia revisionista na U.R.S.S. e em vários países do Leste, bem como através da luta travada contra ele na China, conhecem-se muitos outros aspectos da realidade em que ele tomou forma. Na China, antes do triunfo da revolução cultural, havia uma linha revisionista em matéria de ensino, na arte, na investigação, etc.; na U.R.S.S., o revisionismo moderno manifesta-se originalmente em matéria de perseguição política e avassalou, igualmente depois do golpe-de-Estado de Kruchtchev, todos os campos da vida soviética. Paralelamente, no plano teórico, o revisionismo manifesta-se, nos nossos dias, nos mais diversos domínios, embora as suas formulações mal se distingam da sabedoria burguesa, a que estão intimamente ligadas.
Dentro de tudo isso cabem perfeitamente as "correcções" introduzidas pelo seareiro, ainda que elas tenham algumas incompatibilidades com a máscara de "ortodoxia” dos kruchtchevianos e se aproximem mais das intelectualices doutros anti-marxistas. De resto, até na concepção da luta de classes (por ele referida por não ter sido discutida na polémica) o seareiro assume uma posição revisionista. Com efeito, desprezando a experiência colhida pelas massas revolucionárias portuguesas, que rejeitaram a via pacífica e eleitoralista, o revisionista seareiro — opondo-se à via marxista-leninista indicada pelo P.C.P.(m.-1.) — tenta mantê-las agarradas ao pacifismo da luta parlamentarista e das acções legais que dêem à social-democracia um apoio para as suas negociatas políticas com a burguesia dominante. Quer o sea­reiro uma prova mais evidente do carácter revisionista das suas conjecturas "marxistas"?
★ ★ ★
O próprio leitor da "Seara" deve ter dado conta que o temerário e camuflado crítico de Lenine de Junho e Julho passado aparece, agora, sob uma figura bem diferente, depois de desvendados os seus desígnios e de arrancada a máscara que o encobria à vista dos incautos. Como uma dama burguesa privada da mala dos cosméticos, o sea­reiro aparece-nos na "Sua nudez de vulgar oportunista, de falsificador, de "aprofundado" do marxismo e de intelectual pedante.
As tentativas de adulteração da ideologia do proletariado são comandadas por fins contra-revolucionários bem orquestrados e têm de merecer da classe operária a mais aguda vigilância, venham elas donde vierem. Na actual circunstância histórica, devido ao aparecimento do revisionismo moderno, elas vêm em grande quantidade mesmo de dentro do movimento operário — merecendo-nos por isso uma atenção particular — mas isso não deve obstar a que combatamos do mesmo modo as que surjam doutros sectores das forças políticas. Como dizia Lenine, desde que o marxismo bateu no seu próprio terreno a "ciência" burguesa, as classes exploradoras infiltram a sua ideologia no marxismo através do revisionismo, num esforço último de o combater. Daí não poder haver qualquer trégua por parte do proletariado com esse cavalo de Tróia da burguesia. O triunfo político sobre esta passa pelo combate sem descanso contra todas as formas de revisionismo, seja ele de tonalidade cunhalista, "bolchevista" ou seareira.

1.   Nos pontos seguintes as posições de Lenine são igualmente contidas em "Materialismo e Empiriocriticismo”.
2.   Aqui corrigimos a linguagem: materialistas modernos para materialistas dialécticos, Ulianov para Lenine, etc.
3. "Seara Nova" nº de Fevereiro de 1972, p.47, 1ª coluna. Ulianovismo é o mesmo que leninismo.
4. Ver "Seara Nova", nº citado p.46.

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