sábado, 25 de fevereiro de 2017

1977-02-25 - Luta Popular Nº 525 - PCTP/MRPP

comentário
EM REDOR DO SENHOR ANTUNES

As declarações do major Melo Antunes à revista espanhola «Cuadernos del dialogo» (ideologicamente conotada com o partido revisionista espanhol), logo que foram transmitidas no dia de ontem pelo matutino oficiai do CDS, «O Dia» desencadearam ao nível da opinião pública diversas movimentações cujo conjunto merece ser examinado com o necessário pormenor.
O conselheiro da Revolução major Melo Antunes teria declarado a tal revista que «o modelo de sociedade proposto pelo Partido Socialista Português, hoje no poder, afasta-se bastante e cada vez mais do modelo contido no programa das Forças Armadas». E não só; teria dito também, em referência aos oficiais social-fascistas implicados no golpe contra-revolucionário do 25 de Novembro, que «a todos nós causa embaraço que alguns conhecidos companheiros militares venham a ser submetidos ao juízo de um órgão não revolucionário, como não são os Conselhos de Disciplina, órgãos sobreviventes de uma hierarquia clássica a que o 25 de Abril pôs fim». E termina esta parte da sua entrevista reivindicando para o CR a capacidade de julgamento definitivo dos golpistas.
Ainda a propósito do 25 de Novembro, Antunes adiantou que «ainda não se realizou uma análise séria acerca do que ele foi», sendo que, em seu entender, «só a decidida intervenção do «Grupo dos Nove» pôde impedir que, então, a direita controlasse absolutamente o poder e asfixiasse o processo revolucionário». A este respeito, Melo Antunes concluiu repetindo a velha e decrepita tese da imprescindibilidade da aliança «povo-MFA», enquanto defende com unhas e dantes a continuidade do CR como «garante da democracia» e do «espírito» do PREC.
Acerca da entrevista Melo Antunes viria a ser interrogado no sentido da confirmação dos respectivos dados pelos vespertinos «Diário de Lisboa» e «Diário Popular». Encabulado (certamente arrependido por ver que às suas declarações fora dado um relevo superior ao que pretendia), o major de artilharia foi obrigado a aceitar o essencial do seu conteúdo, posto que táctica mas desastradamente houvesse, também aventado que «não foi bem assim».
Por outro lado, o vespertino oficioso do partido governamental «A Luta» consagrava o seu editorial à crítica das afirmações do senhor Antunes, bem como o Primeiro-Ministro Mário Soares, abordado a esse respeito à entrada do Conselho de Ministros, se viu obrigado a reconhecer a sua eventual «gravidade».
Que concluir acerca das especulações alimentadas em volta do acontecimento?
É evidente que o proletariado revolucionário e o seu Partido combatem com todo o vigor as medidas anti-operárias e anti-populares do Governo Constitucional, assumindo o seu papel de vanguarda na luta contra a fome, a miséria e o desemprego. Não o fazem no entanto empunhando o roto estandarte do «programa do MFA» (que serviu em tempos de pólo aglutinador dos diversos sectores da classe dominante e hoje praticamente só é retomado pelos epígonos encanecidos da «maioria de esquerda»), mas sim erguem bem alto o seu próprio programa, o programa dos operários e camponeses e demais camadas revolucionárias do povo. E entendem também que o programa popular e democrático ansiado pelas amplas camadas do povo só pode ser aplicado contra a «maioria de esquerda» e os revisionistas — ou seja, contra os amigos do senhor Melo Antunes, os quais nas declarações do conselheiro em que intervém em defesa dos golpistas social-fascistas do 25 de Novembro, são reconhecidos mais uma vez a explicitamente enquanto tais.
Com as declarações prestadas aos «Cuadernos», o major Meio Antunes (que nunca se levantou curiosamente contra as medidas anti-operárias e anti-populares dos sucessivos Governos Provisórios que ele não só apoiou mas até interveio em sua aplicação), procura habilidosamente chamar a si a liderança da revolta que começa a existir junto de muitos oficiais democratas e patriotas, a justo titulo descontentes com a política reaccionária do Governo Constitucional. Por isso, o senhor Antunes começa a distanciar-se da política do Governo, de um Governo que, recordemo-lo, este indivíduo não hesitou a apoiar aquando da sua tomada de posse, repetindo nessa altura como um gramofone que seria a «única alternativa de esquerda». Está à vista o resultado dessa «alternativa de esquerda», pelo surgimento da qual Antunes é corresponsável.
Antunes não quer perder o comboio... porfiando em tentar manter atrelados ao carro da política reaccionária que defende (a da «maioria de esquerda») a maioria dos oficiais progressistas e susceptíveis de ser unidos em torno de um programa democrático.
Por isso mesmo, os órgãos da «informação» do grande capital privado se erguem contra Melo Antunes, a propósito destas suas declarações. Mas tal acontece porque Antunes defende uma política que é a prosseguida por outro sector da burguesia que não aquele representado por tais órgãos, não porque esta personalidade militar defenda um programa minimamente aceitável pelo proletariado, o grande capital privado e seus partidos querem ser eles próprios a aplicar o programa anti-popular que Melo Antunes entende só poder ser levado à prática através da «maioria de esquerda» (e com oficiais democratas como tropa de choque), a polémica gerada à volta daquele membro do CR não representa senão uma falsa alternativa que certamente não iludirá os operários conscientes e todos os trabalhadores que se levantam contra as medidas do Governo vende-pátrias e vende-operários.
Pois o povo português conhece cada vez melhor o major Meio Antunes como o «pivot» essencial da táctica dos social-fascistas na presente conjuntura política e sabe que o seu «constitucionalismo» de pacotilha não passa de um trampolim para a imposição da «maioria de esquerda».

Sem comentários:

Enviar um comentário

1977-06-23 - PROCESSO DE UM PROCESSO - 2 - Rui Gomes

PROCESSO DE UM PROCESSO - 2 A FEDERAÇÃO INTERNACIONAL DOS DIREITOS DO HOMEM   PRONUNCIA-SE   PELA IMEDIATA LIBERTAÇÃO DE RUI GOMES E...

Arquivo