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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

1977-02-22 - Bandeira Vermelha Nº 058 - PCP(R)

EDITORIAL
A LUTA DOS TRABALHADORES APONTA PARA O 25 DE ABRIL DO POVO

A crise económica profunda em que se debate o capitalismo em Portugal marca com os seus traços inconfundíveis a situação política do país. Acontece que a crise por que passa o capitalismo em Portugal, apesar dos seus traços particulares, tem raízes na crise geral atravessada pelo capitalismo em todo o mundo e, em especial, na Europa. Portugal não constitui uma ilha em crise — é, pelo contrário, uma gota no mar da crise económica que abala o capitalismo. Este facto torna ainda mais agudas as manifestações da crise no nosso país.
As perspectivas que se abrem na Europa e no mundo são de avanço revolucionário das forças populares e operárias. Todos os compromissos que pretendam, no fundo, fazer passar a crise salvando o capitalismo, salvando os instrumentos do domínio imperialista e salvando a burguesia capitalista, são actos reaccionários que entravam o desenvolvimento das forças revolucionárias e a sua vitória.
No nosso país, as classes trabalhadoras, com especial destaque para o proletariado, demonstram, pelas lutas que têm desencadeado e pelas que prometem iniciar, que não é justo serem os trabalhadores a pagar os prejuízos causados pelo capitalismo e pelos capitalistas. Mais ainda: os trabalhadores demonstram que não estão dispostos a ser sacrificados por uma crise que não causaram e da qual têm sido, de resto, as maiores vítimas.
Para quem quer ver o actual movimento grevista e reivindicativo com uma visão revolucionária, é fácil perceber que os trabalhadores estão a dizer claramente ao governo e aos grandes capitalistas que a recuperação capitalista que um e outros pretendem levar a cabo não se fará à custa de quem trabalha.
Estas lutas dos trabalhadores contra a carestia, contra as medidas legislativas de carácter antipopular e antioperário levadas a cabo pelo governo, estão portanto no prolongamento da luta travada pelo povo por melhores condições de vida, pela liberdade, contra os exploradores e os fascistas. São a legítima defesa dos direitos duramente alcançados, especialmente no curso da crise revolucionária que o 25 de Abril abriu.
A POLÍTICA REVISIONISTA DE SABOTAGEM
As acusações — por demais conhecidas, aliás — de que as movimentações dos trabalhadores em defesa dos seus interesses económicos e da sua liberdade são movimentações que põem em perigo a liberdade e que agravam a crise económica, são falsas. Pecam pelo facto de confundirem a liberdade com os interesses políticos da grande burguesia e do imperialismo e de confundirem a estabilidade económica e a prosperidade de um país com os interesses particulares da classe dos capitalistas. A liberdade periga e a crise económica aprofunda-se porque as medidas postas em prática pelo governo e apoiadas ou consentidas pela direita e pelos revisionistas, visam atacar a liberdade do povo, o seu nível de vida e as suas conquistas.
Aos revisionistas do partido de Cunhal cabe um papel significativo, de importância primordial mesmo, na tentativa que a burguesia faz de recuperar o fôlego e sair da crise à custa dos trabalhadores. A política dos revisionis­tas consiste, neste momento, não em fazer leis contrárias aos interesses populares e operários, mas em tolerá-las mesmo com algum protesto, quando são propostas e aprovadas, e em convencer os trabalhadores a aceitá-las. A política dos revisionistas consiste neste momento não em chamar a polícia para reprimir os trabalhadores em greve, mas em quebrar-lhes o ânimo e em fazer-lhes aceitar soluções de compromisso desvantajosas. A política dos revisionistas consiste neste momento não em opor-se frontalmente às lutas dos trabalhadores mas em canalizá-las para caminhos onde os capitalistas têm mais margem de manobra, por exemplo as votações na Assembleia da República. A política dos revisionistas consiste neste momento, não propriamente em chamar reaccionárias às greves, mas em desfazê-las por dentro por falta de organização dos Sindicatos que dominam, como no caso da Função Pública. Chama-se a isto uma política de traição aos interesses revolucionários dos trabalhadores.
A política de ataque frontal às conquistas dos trabalhadores, praticada pela burguesia reaccionária e pelo governo, completa-se com a política de sapador praticada pelos revisionistas.
As imposições imperialistas para a realização de empréstimos e para os acordos com a Comunidade Económica Europeia (CEE) são imposições políticas que se centram na exigência de garantias por parte do governo e das outras forças burguesas, incluindo os revisionistas, de que não hesitarão em reprimir e destroçar as lutas populares de modo a evitar o aprofundamento da crise política no país.
Debatendo-se os países capitalistas da CEE, para além da crise económica, com crescentes problemas e crises políticas, e não sendo novidade para nenhum deles a extensão da crise do capitalismo em Portugal, as garantias que exigem são primeiro que tudo políticas. Para estas garantias, não se esquivam os revisionistas a contribuir com a sua quota-parte, minando o movimento popular, fazendo das lutas em defesa das conquistas lutas de cedência, colaborando enfim na criação das condições exigidas pelo imperialismo. Assim, enquanto no domínio da propaganda os revisionistas se fazem opositores da entrada para a CEE, na sua acção de todos os dias favorecem a "acalmia política" que o imperialismo exige.
POR UM GOVERNO DO 25 DE ABRIL DO POVO
As lutas que hoje se desencadeiam vêm carregadas de potencialidades revolucionárias. Opõem-se à recuperação capitalista, defendem as conquistas obtidas, apontam para a punição dos fascistas, levantam-se contra as chantagens do imperialismo sobre o nosso país. São lutas que, pela sua natureza, renovam a combatividade das massas operárias e populares levantando as bandeiras do 25 de Abril. O seu conteúdo é o do 25 de Abril do Povo.
É preciso desenvolver esta combatividade, esta confiança nas próprias forças, e não deixar que ganhe corpo a propaganda burguesa e revisionista sobre a "estabilização" e sobre a "crise económica", como pressões para a desmobilização e para a cedência. Os revisionistas devem ser combatidos como ardilosos sabotadores das lutas e traidores aos interesses populares. As suas alternativas esfarrapadas, por eles próprios postas de lado, como o "governo de esquerda", não constituem solução para a crise que vivemos. Mas também não podem constituir ilusão para os trabalhadores que lutam.
O nosso Partido aponta no sentido certo: o de um governo do 25 de Abril do Povo. É esta alternativa, na mesma linha do movimento popular que se ergueu com a queda do fascismo, a resposta às lutas hoje em curso.
Os trabalhadores precisam de um governo que defenda os seus interesses. Por ele luta o Povo, por ele luta a classe operária, por ele lutam os comunistas!

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