sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

1977-02-17 - Revolução Nº 100 - PRP-BR

EDITORIAL

Rocha Vieira foi a Lamego explicar sobretudo porque é que um certo número de oficiais vão ser chamados a Conselho de Disciplina. Isto é, ao falar no necessário apartidarismo dos militares, Rocha Vieira procura explicar pelo «partidarismo» as culpas que serão imputadas aos militares de esquerda do exército a quem sucederá o mesmo que na Marinha aconteceu a Rosa Coutinho. Essa lista de militares de esquerda do Exército sobre quem cairá a mão duma justiça militar feita para defender a burguesia consta que é em número de cerca de 60. Este é pois um processo legalista de arrastar militares (muitos deles «militares de Abril») que as forças de direita querem escovar.
Este é o estilo que caracteriza também a Presidência da República empenhada num rigor de julgamento ao pós 25 de Abril que se acompanha de benevolência sem par em relação aos antes do 25 de Abril. As razões desta disparidade de julgamento não residem na antipatia pessoal do Presidente da República, residem sim em razões de classe, que são as únicas que importam na História. O actual Poder de Estado português defende a burguesia e persegue aqueles que se põem do lado dos trabalhadores.
O que torna este poder ambíguo e que contribui aliás para a sua instabilidade no sentido de que ele não seja desde já um poder autoritário de direita, é a presença dentro do Poder duma corrente antifas­cista. A presença dessa corrente antifascista toma em Portugal um carácter especial, dadas as dificuldades da economia, dado o recente passado fascista e dadas as características das Forças Armadas, por onde passou com força o vento do 25 de Abril São essas razões que conduzem a fortes oposições dentro do Poder e que conduzirão a rupturas.
É neste sentido que se têm que interpretar as palavras de Vasco Lourenço em Mafra e a oposição que contra ele se levantou.
É por ainda existir a possibilidade do governador Militar de Lisboa fazer as afirmações que fez, é por uma maioria do Conselho da Revolução lhe manifestar solidariedade, é por Costa Neves ainda pretender levar a tribunal os oficiais do 11 de Março, é por existirem ainda nos quartéis muitos oficiais antifascistas que a direita pesará as dificuldades de fazer desde já um golpe fascista. No entanto, a direita não pode sustentar a situação actual e terá que encontrar a curto prazo soluções autoritárias para conter pela repressão os revolucionários e as lutas dos trabalhadores.
Perante estes dados resta a possibilidade ao Presidente da República de instaurar o governo presidencialista que lhe daria as possibilidades de ultrapassar as dificuldades do actual Governo em relação à recuperação capitalista e que lhe conferiria poderes para uma primeira fase de repressão. Esta constituição de um governo presidencialista é no entanto tarefa difícil para um Presidente da República, a quem fugiria a maioria da Assembleia da República e que se veria obrigado a dissolvê-la. No entanto, sejam quais forem as cartas que a direita jogar de imediato, há dados certos na evolução do País. Os empréstimos e a entrada da CEE serão regateados e condicionados, o ritmo da crise económica é progressivamente acelerado.
A par disto, as massas trabalhadoras não se conformarão com o desemprego e com salários de fome e virão constantemente para a rua lutar por melhores condições. Nesse aspecto, este País será sempre um mar agitado à vaga das lutas dos têxteis segue-se a dos pescadores. E quando se pensa que Lisboa é uma região relativamente tranquila comparada com o Alentejo ou com as zonas de têxteis do Norte, já as lutas começam na capital, por causa da ameaça do desemprego. É em relação a este mar agitado das massas trabalhadoras que a direita fez as suas contas e pensa o seu calendário. É também em relação a estas movimentações que a esquerda tem de pensar a sua organização e a sua unidade. Para a direita e para a esquerda há uma carta que jogará com muita importância - a dos antifascistas que estão dentro do Poder.

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