segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

1977-02-00 - Boletim da FAPIR Nº 02

O 25 DE ABRIL CONTINUA A SER SUBVERSIVO

Aquilo que no nosso país se tem passado no campo da cultura, ajuda-nos a compreender melhor o que foi, o que é, o fascismo. Com efeito, e sobretudo para a geração intelectual formada durante a última fase do regime salazarista, nem sempre era fácil distinguir as graduações ideológicas das múltiplas resistências que se lhe opunham. Num tempo em que era, por si só, subversivo falar na liberdade ou cantar o hino nacional, a ingenuidade generosa do humanismo politicamente ignorante ia arrastando — quantos de nós? — para o pântano da unidade de mesa de café, da unidade "nacional-porreirista", como em tempos a definiu tão bem o nosso camarada Sérgio Godinho. A prática da unidade na resistência e o referencial popular — as duas mamelas dos caudais sociais realmente transformadores — eram, de ano para ano, vítimas do mesmo cancro inflacionário que foi esvaziado o escudo e a superestrutura do regime colonial fascista. A dose de mal-estar e de revolta era fornecida pela repressão quotidiana ou mesmo apenas pelo medo delas. A censura casava-se todos os dias com a auto-censura. E, com o café depois do almoço, vinha a dose de "boa consciência”, aquele soporífero que mascara a inquietação pusilâmine dos pequenos burgueses.
Hoje não estamos no mesmo ponto da história. A luta dos povos agudizou a degenerescência galopante do Estado fascista; as alternativas para a crise foram-se gerando e os castelos de cartas da unidade-fora-da-luta ruíram sem que o povo ouvisse qualquer estrondo. Nós, artistas e intelectuais que por vezes andaríamos longe do povo, ficámos assarapantados com o estrondo do 25 de Abril. E mais assarapantados ficaram os políticos burgueses que organizaram o golpe de Estado.
A explosão da luta e a liberdade de expressão varreram, como uma torrente de degelo, as águas turvas e os nenúfares. A prática da liberdade — o santíssimo sacramento da verdade — põe quotidianamente as pessoas a nu. E baptiza-as. Quem só sabia andar de noite está agora debaixo do sol aberto da luta popular.
A NOITE DE PORTUGAL
Por isso se compreenderá melhor o que significa o actual levantar de cabeça das forças descaradamente fascistas em Portugal. Ao travar e reprimir a vontade revolucionária das massas, o 25 de Novembro institucionalizou o escândalo. Agora o tão sacudido aparelho de Estado (Administração, Forças Armadas, Tribunais, máquina informativa), de novo com os fascistas em cada cruzamento a comandar os semáforos, está “operacional e tecnicamente preparado para o desempenho das suas funções" — como diria Ramalho Eanes. Está tudo mais claro. Mais claro do que antes do 25 de Novembro, entenda-se. A Amália Rodrigues volta a atirar trinados para o regaço de Kaulza de Arriaga e do Jaime Neves, o Vasco Morgado volta a ser patriota diurno — mas agora também podem contar com a Natália Correia. O fascismo comemora a Noite de Portugal. Comemora o 50° aniversário da Noite de Portugal.
Trata-se de quê? "Ressurgimento" vivaz? Ou simples saudosismo beato? Em Espanha, onde os povos — "ojos sinponiente sienpre en alborada" — reacendem a fogueira imensa. Dona Lola Flores está de olhos postos na dona Amália. Os generais franquistas de olhos postos no Kaulza, Suarez de olhos postos em Eanes. Nós todos, de olhos postos nos povos de Espanha, entrevemos o fim da sua noite.
E o nosso povo também. "A Luta Continua". Continua-se a reviver Abril por todo o lado, mas melhor. Estejamos contentes e atentos: o 25 de Abril continua a ser subversivo.
CONSCIÊNCIAS DEFORMADAS
O grande capital e o imperialismo arranjam, segundo os momentos, os arautos que melhor os servem. E no campo da Educação e das Artes, hoje em dia, vemos melhor o que era a falsa unidade durante a noite de Portugal. O referencial da prática surpreende-nos de clareza. Cardia, à direita do que foi Veiga Simão, põe arame farpado nos liceus, nos programas educativos e na autonomia universitária. Mourão-Ferreira, ao lado de Manuel Alegre, cria unhas afiadas para matar o teatro livre e — como ele rimalhou, em tempos, — "voltamos febris àquela sede onde só vale o que os sentidos dão" —    que é uma maneira eufemística de ser lacaio de Vasco Morgado e herdeiro de Moreira Baptista. A prática governativa põe esses intelectuais anti-salazaristas em pelote, e o "socialismo" que eles praticam torna-se tão pobremente pornográfico, como os filmes e as revistas dos patrões que eles defendem. "A consciência forma-se e deforma-se na e pela acção". Quem escreveu isto foi Mário Sottomayor Cardia. Em Maio de 1973. Os traidores quase sempre são inteligentes. Mas ser inteligente é uma coisa, e ser esperto é outra. Os nossos traidores de trazer por casa não são espertos, não vão durar muito. E gente de purgatório, que vai andar sempre às sopas, a pedir cinco coroas de poder.
Os verdadeiros contendores, o povo e os fascistas, os que lutam no campo popular e os que lutam no campo do grande capital e do imperialismo, vão buscar aos escritos de Cardia, do Mourão-Ferreira e do Alegre aquilo que serve a cada um deles — e a luta prossegue até à tomada do poder pela inteligência colectiva.
COMBATER PELA CULTURA
Combatemos pela evidência. Eis-nos, FAPIR, no nosso terreno. O nosso projecto ganha corpo na prática militante de artistas e intelectuais que se assumem como tais. Aprendemos, praticando a luta, realizando as ideias, servindo o povo, a forjar uma unidade que nunca será "nacional-porreirista", mas sim a dos laços de trabalho coerente que criarão laços de sangue culturais. A FAPIR cresce em quantidade como resultado do crescimento em qualidade. Isto é, vai fazendo a demonstração prática da evidência do seu combate — e assim ganha novas forças. Vai ampliando as suas iniciativas para outras regiões do país, para fora de paredes estreitas. Assim, as consciências paradas e auto-satisfeitas não medram; reduzem-se a pó, como os vampiros à luz do sol.

José Mário Branco.

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