terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

1972-02-29 - SOBRE DOIS ATAQUES AO MAEESL - Movimento Estudantil

AOS ESTUDANTES DO ENSINO SECUNDÁRIO:
SOBRE DOIS ATAQUES AO MAEESL
29-2-72
...Ou Como Pretensos Defensores dos Estudantes Dão a Mão às Autoridades

Comunicado do MAEESL (movimento associativo dos estudantes do ensino secundário de Lisboa)

INTRODUÇÃO
No passado dia 8 de Fevereiro, o deputado Casal Ribeiro fez na Assembleia Nacional uma intervenção sobre o MAEESL, referindo-se particularmente ao jornal de uma das nossas Delegações - o "Acção" do liceu de Cascais.
Nessa intervenção tentava "misturar" o MAEESL com o Partido Comunista, além de afirmar que nós não temos apoio junto dos estudantes e que os nossos comunicados são feitos por "adultos".
Tal é o carácter falso da dita intervenção, que fomos obrigados a esclarecer devidamente, junto de todos os estudantes, o que é o MAE­ESL e o porquê da intervenção do deputado Casal Ribeiro.
O apoio que os estudantes do Ensino Secundário têm dado aos nossos comunicados e às nossas acções demonstra bem de que lado é que está a razão!
SOBRE UM DISCURSO...
1)Casal Ribeiro na sua intervenção afirmou o seguinte, quando se referia ao "Acção": "E não é um boletim feito, como se diz, por estudantes - pelo menos liceais - para estudantes! É uma linha revolucionária..."
Na realidade, quem ler o "Acção" ou estiver a par do trabalho do MAEESL, sabe que isto é falso. Todos os jornais de escola ou comunicados são escritos pelos directamente implicados, (jornal de Cascais, por aluno de Cascais, etc...). Casal Ribeiro sabe como isto é verdade, e é por isso que nos ataca (se fôssemos um grupinho sem contacto com os estudantes, sem o seu apoio, será que o deputado Casal Ribeiro faria tanto barulho?).
2)  "É um boletim onde se afirma, segundo se pode ler, nada haver de comum com os "jornalecos" tipo Mocidade Portuguesa (que Deus haja infelizmente)…"
Com esta frase Casal Ribeiro define-se bem: grande defensor do "jovem fardadinho", do militarismo e autoritarismo. Para ele, um bom jornal é o tipo M.P., onde o que se pretende é afastar-nos dos nossos problemas e criar-nos um espírito militarista. Ele combate os jornais do MAEESL que pretendem informar os estudantes do "que acontece diariamente no liceu e de que nem sequer temos conhecimento" (in "Acção")
3) "O boletim Acção, que pretende traduzir a ideia de movimento, preconiza o direito à greve, à represália contra a incompetência e severidade dos professores e a impassibilidade da reitoria (frente às reivindicações)".
O senhor deputado insurge-se indignado contra uma realidade das nossas escolas: a greve de turma, a incompetência dos professores e o "deixar andar " da reitoria face aos nossos problemas.
De facto que outra solução nos resta quando, ao pretendermos resolver um problema na nossa turma, nos chamam de "revolucionários baratos", ameaçando-nos com suspensões? Será que o Casal Ribeiro pretende que fiquemos impassíveis perante a incapacidade de um professor? Parece-nos bem que sim. Todos nós, estudantes, sabemos bem o que ajuda fiarmo-nos nas promessas das autoridades: que o digam os estudantes de Cascais com a professora de Matemática, que o digam as do D. Leonor com o problema das saídas, os do Pedro Nunes com a Manela Pais, as do Maria Amália com a Comissão de finalistas, os do Passos Manuel com o problema dos chuveiros, os do D. João de Castro com o "Jaiminho", os do Pedro V com o "Cidreira", os da Veiga com o Rusquet, etc, etc, etc.
No fundo, o Casal Ribeiro chama de "slo­gans" adultos e subversivos, o que a nossa experiência de estudantes nos demonstra: sem discutirmos os problemas, sem actuarmos por nós pró­prios, nunca ninguém resolverá os nossos problemas.
4) "No liceu Gil Vicente tentou-se na realidade distribuir um boletim informativo, mas não foi permitido. Fomos a tempo. Não foi permitido e até os alunos que intervieram na distribuição do boletim foram imediatamente postos na rua".
(Braz Gomes)
O Deputado pelo "Estado da Índia" e reitor do Gil Vicente mente descaradamente ao afirmar que o "Informativo" não foi distribuído. Até depois da distribuição do jornal já saiu um outro comunicado informando sobre uma greve de uma turma de 7º ano! Além disso nenhum aluno foi expulso por ter distribuído o jornal.
O reitor do Gil Vicente pretendia era demonstrar que "no seu liceu não há subversão", que, como o Casal Ribeiro dizia, "nem tudo está pervertido" e outras "pinceladas" que ajudassem a intervenção do Casal Ribeiro.
Ainda mais ridículo se torna, todo o diálogo que se travou sobre se os "tais" alunos tinham sido "expulsos" ou "convidados a sair", se "tinham advogado" e outras tiradas do estilo.
5) E o "liberal na concessão da palavra", mas não na "concessão" continuou relacionando com aquele brilho e coragem que o caracterizam" (Cunha Araújo) os acontecimentos de Espanha com as eleições da Ordem dos Médicos e com o MAEESL (tudo um maquiavélico plano coordenado pelo Partido Comunista, na clandestinidade, sem dó nem piedade, "aproveitando-se desses jovens sem preparação para a vida - menos ainda para a política -..."). O mal nunca está na actuação do governo, nem nunca há justiça nas reivindicações dos estudantes; é sempre tudo uma conspiração de "partidos" a soldo de potências estrangeiras"...
Enfim manias...
Ora diga-nos, sr. deputado Casal Ribeiro, onde, nos nossos jornais, há algo de inspiração comunista? Não se esforce porque não encontra. O sr. sabe bem como nós, que o MAEESL nada tem a ver com tendências ou partidos políticos e que nos limitamos a defender os interesses dos estudantes.
6) “...um apelo a todos quantos possam combater um mal que, sendo já, infelizmente, uma realidade, só tem uma espécie de vacina: não o ignorar, enfrentá-lo corajosamente e esmagá-lo implacavelmente. E oxalá não seja muito tarde!.”
Como já vem sendo hábito, Casal Ribeiro propõe um "implacável esmagamento", "cortando o mal pela raiz": Quando a repressão que se exerce sobre nós através das faltas, expulsões, suspensões não chega para calar as "justas reivindicações" dos estudantes, vem a polícia e as prisões: A polícia no Comercial, a polícia na Faculdade de Ciências, ameaças de polícia no Pedro Nunes é a Polícia em Direito. Isto quando a luta dos estudantes não "agradam" às autoridades, quando estas não têm resposta possível a dar à união dos estudantes.
SOBRE UM GRUPO ANTI-MAEESL
Vamo-nos agora referir sumariamente a um grupo surgido nos fins de 71 - O C.E.A. (Centro de Estudos Associativos) - e mostrar que apesar da sua linguagem, o resultado prático é igual ao do deputado Casal Ribeiro.
Todos os estudantes sabem que a força do seu movimento está na unidade que se consegue obter, e que essa força acaba a partir do momento em que as autoridades consigam dividir-nos e impedir-nos de actuar organizadamente na defesa dos nossos interesses.
Quando surgem grupos como o "Vanguarda" (grupo "cultural" que apareceu o ano passado no Pedro Nunes), que nos pretendem dividir e impedir de prosseguir a nossa luta, o MAEESL tem de saber alertar os estudantes para o perigo que esses grupos representam.
O tal O.E.A. pretende desenvolver um trabalho em duas frentes (no MAEESL e nas escolas), criticando a orientação do MAEESL actual e propondo a solução que achar mais correcta, dando também uma consciencialização e uma politização?) aos estudantes, coisa que o MAEESL tem ignorado até agora" (de um documento do C.E.A.)
O trabalho associativo caracteriza-se, antes de mais, pela sua unidade, por se desenvolver num sentido único. Quando esta trabalho se deixa de desenvolver de uma forma unida, quando se divide em vários sentidos opostos, ele deixa de ser associativo, e em vez de contribuir para a luta estudantil e para o esclarecimento dos estudantes, está-nos a dividir, está objectivamente (1) a ter uma atitude anti-associativa e anti-estudantil.
Ao quererem dar uma "politização" aos estudantes! "coisa que o MAEESL não dá", estão a querer que o MAEESL volte a ser o que era dantes, estão a querer que ele se afaste dos estudantes e das suas lutas.
Todos aqueles que pretendem desenvolver a luta dos estudantes pela defesa dos seus interesses, isto é todos os que pretendem realizar trabalho associativo, devem juntar-se num organismo democrático, uno e politicamente neutro. Esse organismo é, no ensino secundário, o MAEESL que agrupa todos os estudantes que pretendem trabalhar nas escolas e que aceitam os princípios da democraticidade, da unicidade e da apoliticidade.
O MAEESL não é uma estrutura fechada, onde só entram aqueles que concordam com a actual direcção. A prova está na existência, dentro do MAE­ESL, de colaboradores com concepções consideradas incorrectas pela direcção. Desdenhando estes factos, os fundadores do C.E.A. espalham calúnias acerca do "anti-democrático MAEESL", sem apresentarem o mínimo argumento. O C.E.A. ao caluniar o MAEESL nas escolas, pode levar a que, alguns estudantes menos a par do nosso trabalho acreditem neles. Com estas calúnias esses senhores tentam desprestigiar o MAEESL junto dos estudantes, colocando-se ao lado da Mocidade Portuguesa, autoridades e Casal Ribeiro. Todos eles usam o mesmo método - a mentira descarada, o palavreado oco e falso - todos eles têm o mesmo fim: desprestigiar o MAEESL junto dos estudantes, como forma de evitar que estes sejam esclarecidos do que se passa.
É evidente que o C.E.A. depois de desmascarado perante todos os estudantes não continuará com o mesmo nome, embora os seus métodos e objectivos continuem os mesmos. Tal como o Vanguarda que depois de desmascarado mudou de nome para E.L.I. (Estudantes Liceais Independentes) continuando a desenvolver o mesmo trabalho “cultural" caluniador:’ do MAEESL, o C.E.A. mudará de no me, para que os estudantes pensem que não é o mesmo grupo, permanecendo no entanto o fundamental: o carácter anti-estudantil, caluniador do MAEESL impedindo assim os estudantes de lutar unidos pelos seus interesses.
O MAEESL é um organismo apolítico e arreligioso, o que significa que nele estão integrados todos os estudantes, sem atender às suas opiniões políticas e religiosas, não seguindo o trabalho que ele desenvolve directrizes políticas, mas sim aquelas ditadas pelos interesses dos estudantes e pela necessidade de eles compreenderem claramente a realidade que os cerca.
Não é só o deputado Casal Ribeiro a "não perceber" isto. Também os fundadores do C.E.A. fazem a maior confusão sobre a apoliticidade do MAEESL.
O órgão máximo do MAEESL é a AG (Assembleia Geral); aí estão presentes todos os estudantes do Ensino Secundário interessados em realizar trabalho associativo nas escolas. E em AG que é eleita uma direcção, que propõe com um Programa de Candidatura (texto onde se expõe o que se propõe fazer em cada ano). O Programa deve ser previamente discutido nas Delegações (os estudantes interessados em trabalhar associativa mente numa escola, formam a delegação do MAEESL nessa escola).
As Delegações estão organizadas em Comissões de Turma (compostas pelos colaboradores do MAEESL existentes nessa turma).
Como se vê, não se pode dizer que o deputa do Casal Ribeiro estivesse "muito correcto" quando afirmou sermos um grupo “exterior" aos estudantes. As já centenas de estudantes que trabalham no MAEESL, são a prova mais evidente que o nosso trabalho obtém o apoio de largas camadas de estudantes.

Nos jornais das nossas delegações, tenta-se informar e perspectivar as principais lutas das escolas, além de se explicar o que se passa nos outros liceus, Escolas Técnicas, Colégios, Universidades e Institutos Médios.
Ao contrário da M.P. e outros "organismo” afins, o MAEESL pretende, que sejam sempre os estudantes a discutir e a decidir por si os problemas que lhes dizem respeito.
Desenvolver e levar o nosso trabalho junto de todos os estudantes é neste momento o nosso objectivo principal.
"...Combatamos, de todas as formas ao nosso alcance, a delapidação de uma juventude...".
"...Um mal que (...) só tem uma espécie de vacina: não o ignorar, enfrentá-lo corajosamente e esmagá-lo implacavelmente".
"As forças da ordem ou aquelas que forem chamadas a intervir...".
"Vozes Muito bem! O orador foi muito cumprimentado". (in Diário das Sessões)
Quando uma turma pretende que um problema seja resolvido, cedo encontra pela frente a reitoria ou a directoria de ciclo fazendo "mil e uma promessas" (que acabam por nunca resolver os problemas). Vem-se então os estudantes na necessidade de "irem para a frente", de sozinhos tentarem resolver os problemas. Logo que se tomam as primeiras medidas, surgem as autoridades muito "interessadas em nos ajudar e não permitir excessos! (surgem então, as longas conversas com os profs. até que, vendo os estudantes que isto nada adianta, os "largam de vez"). E aí que começam as ameaças, tais como: "já estão a ir longe demais”, "olhem a suspensão", "vai haver uma reunião do Conselho Disciplinar"... etc.
As autoridades têm medo que os estudantes tomem posições unidas e de força; elas sabem que se estivermos unidos e organizados conseguimos o que queremos.
O mesmo se passa com o deputado Casal Ribeiro e o MAEESL. Vendo que o MAEESL está a ser apoiado pelos estudantes, vendo que mostramos aos nossos colegas que só unidos poderemos vencer, vendo que os estudantes se apercebem qual o caminho que lhes convém, que começam a criticar o conteúdo maçador, livresco e desligado da realidade que é o do nosso ensino, o deputado Casal Ribeiro, os seus colegas, as autoridades escolares e o governo caluniam o MAEESL, tentando misturar "subversão" com a defesa dos interesses dos estudantes. E porquê tudo isto?
Com estas calúnias Casal Ribeiro (e o governo que ele representa) pretende duas coisas:
- Desprestigiar o MAEESL junto aos estudantes e baralha-los sobre o que queremos. Pretende assim, afastar do MAEESL ("subversivo", "liga do ao Partido Comunista", "minoria de agitadores”) os estudantes menos a par do nosso trabalho ("e oxalá não seja tarde"). Eles sabem, que se existe uma grande ligação entre o MAEESL e os estudantes, que se o MAEESL consegue mobilizar e organizar os estudantes, o ensino acrítico, livresco, etc, será posto em causa (o que lhes não convém nada...).
- A 2ª coisa é "preparar o terreno", para uma possível repressão sobre o MAEESL e os estudantes: "esmagá-lo implacavelmente", "quantos pais não clamariam (ignorando os antecedentes) as suas razões para condenarem o regime, as forças da ordem ou aquelas que forem chamadas a intervir...”.
Está bem "chapado" o que pretendem: ameaçar os estudantes e o MAEESL (tentando meter-nos medo com a polícia, com a PIDE, etc...), e "desculpar-se" perante a opinião pública; caso os "meninos" não se mantiverem obedientes e puserem problemas, seremos obrigados a dar-lhes para cima, e esmagá-los implacavelmente - É este o sentido da sua intervenção.
Pretende-se criar, junto à população (de notar a divulgação de primeira página na maioria dos jornais e a referência à questão na Rádio e na T.V.) uma imagem de que existe "subversão comunista" no Ensino Secundário e portanto se houver polícia, prisões, etc, as pessoas que "não se preocupem"...
Os jornais, a Rádio e a T.V., ao darem o seu apoio às caluniosas afirmações do deputado Casal Ribeiro mostram aos estudantes qual o seu papel, quanto "imparcial" é a sua informação.
E mesmo se alguns jornais mais "liberais" tentassem publicar os verdadeiros factos (publicando a resposta do MAEESL), isso não viria a público, pois lá estaria a tão "zelosa" censura, impedindo que algo de "subversivo" (é curioso como a verdade é subversiva...) viesse junto da população.
- A INFORMAÇÃO DETURPADA DOS FACTOS
- AS CALÚNIAS DO CASAL RIBEIRO E DOS ANTI-ASSOCIATIVOS
- AOS QUE NOS TENTAM IMPEDIR DE RESOLVER OS NOSSOS PROBLEMAS
OPONHAMOS:
- UMA INFORMAÇÃO JUNTO DOS NOSSOS AMIGOS SOBRE OS VERDADEIROS FACTOS
- UMA ATITUDE UNIDA NA BASE DA RESOLUÇÃO DOS NOSSOS PROBLEMAS

O MAEESL (Movimento Associativo dos Estudantes do Ensino Secundário de Lisboa)


O Sr. Casal-Ribeiro: Sr. Presidente: Um grupo do pais de alunos do 2.° ciclo do Liceu de Cascais veio pôr-me um problema que, pela sua gravidade, justifica plenamente o que mais adiante passo a expor.
Não pensava, tão próximo da minha última intervenção nesta Assembleia, voltar a pedir a palavra a V. Ex.ª, e assim importunar os Srs. Deputados com novas afirmações da tarefa a que deliberadamente meti ombros e da qual não desistirei: combater por todos os meios ao meu alcance um estado de coisas que, a meu ver, se vai degradando de forma assustadora o tende" a contaminar a nossa juventude — agora nos liceus.
Posso ficar pelo caminho, mas antes tombar combatendo do que sobreviver transigindo!
E tanto compreensível, actual e coerente é esta posição, quanto é certo, e ninguém, duvidará do facto, que os processos usados pela Central Comunista, que tem a seu cargo fazer deflagrar o movimento em Portugal, aio os mesmos utilizados em Espanha, nossa vizinha, amiga e aliada. E já não chega a juventude trabalhadora ou universitária! Enveredou-se, agora, por um caminho preocupante e cujas consequências estão amplamente referenciadas, se nos debruçarmos atentamente sobre o n.º 1 do boletim Acção, largamente distribuído pelos alunos do Liceu de Cascais. E não é um boletim feito, como se diz, por estudantes — pelo menos liceais — para estudantes! É uma linha de acção revolucionária, traçada por quem sabe muito bem o que quer, e qual o fim a atingir.
É um boletim onde se afirma, segundo se pode ler, nada haver de comum com os «jornalecos» tipo Mocidade Portuguesa (que Deus haja, infelizmente) e que se destina, imagine-se, a apontar o caminho certo para a resolução dos problemas da juventude liceal; do 2.° ciclo, note-se bem, para se concluir melhor do «crime» — não há outra designação possível — que se pretende cometer!
E chama-se Acção porque se destina (passo a transcrever integralmente algumas passagens) a «responder à força com a força»; e ainda porque: «só agindo (e não permanecendo impassíveis, quer por recearmos os castigos, quer por esperarmos que os nossos problemas sejam resolvidos sem nós próprios tratarmos de os resolver) conseguiremos ser superiores às autoridades escolares e lutar com êxito pelos nossos direitos». E isto, prossegue o boletim, «porque» como toda a gente sabe, é muito fácil à reitoria ‘lixar’ qualquer turma onde não haja unidade entre os alunos há firmeza para manter a sua posição. Para isso, Basta-lhe castigar um ou dois, e os outros imediatamente se desorganizam e acabam por desistir».
A Acção defende, assim o declara, «a acção unida e organizada como resposta aos abusos dos professores». Preconiza, de seguida, a sua leitura, a sua discussão e divulgação «entre o maior número possível de malta». Pobre malta, em que mãos está metida!
«Acção unida e organizada é o que é preciso»; e isso «e defende neste n.º 1 do boletim em referência. Destina-se ele também a responder aos abusos dos professores, e a lutar pelos mesmos direitos concedidos aos colegas do 3.º ciclo, com quem querem conviver no liceu (o que é mais difícil) e nos intervalos (naturalmente mais proveitoso). Sugere-se ainda boicotagem das aulas (estudando outras matérias, gozando com determinada professora até que esta modifique os seus métodos de ensino, etc.)
A Acção, órgão do Movimento Associativo dos Estudantes do Ensino Secundário de Lisboa, M.A.E.E.S.L., tem noutros liceus boletins correspondentes, a saber: Movimento, no D. João de Castro, e Informativo, no Gil Vicente. Estes para já; outros, porém, são anunciados.
O Sr. Brás Gomes: — Sr. Deputado Casal-Ribeiro, V. Ex.ª afirmou, há bocadinho, que no Liceu de Gil Vicente se distribuía um boletim, salvo erro «informativo». Devo elucidar V. Ex.a de que não é verdade. No Liceu do Gil Vicente tentou-se na realidade distribuir um boletim informativo, mas não foi permitido. Fomos a tempo. Não foi permitido, e até os alunos que intervieram na distribuição — creio que só na distribuição — do boletim foram imediatamente postos na rua. Quero apenas elucidar V. Ex.a de que não há no Liceu de Gil Vicente qualquer tentativa de distribuição. E se houver...
O Orador: — Houve.
O Sr. Brás Gomes: — Houve, mas não foi distribuído.
O Orador: — Muito obrigado. Isso só demonstra, graças a Deus, que nem tudo está pervertido.
O Sr. Barreto de Lara: — V. Ex.ª o que quer dizer com «postos na rua»?
O Sr. Brás Gomes: — Foram convidados a sair, porque não serviam...
O Sr. Barreto de Lara: — Mas procedeu-se a alguma inquirição?
O Sr. Brás Gomes: — Sim, senhor, a uma inquirição...
O Sr. Barreto de Lara: — Deram-se garantias aos alunos para poderem justificar os seus actos?...
O Sr. Brás Gomes: — Sim, senhor, perfeitamente.
O Sr. Barreto de Lara: — Procedeu-se com lisura, portanto. Soube-se se se estava de certeza perante os culpados?
O Sr. Brás Gomes: — Os próprios pais e encarregados de educação, ou o próprio pai de um deles, concordou com isso, em tirar o rapaz, porque era impossível ele continuar.
O Sr. Barreto de Lara: — O pai de um deles, mas o pai não vincula. Eu só quero saber se os que foram «postos na rua», segundo a menos feliz expressão do V. Ex.a ...
O Sr. Presidente: — Sr. Deputado Barreto de Lara, está a interromper o orador ou está a fazer uma intervenção que poderia fazer em melhor oportunidade?
O Sr. Barreto de Lara: — Impressionou-me a expressão e, como o orador é um liberal na concessão...
O Orador: — Não sou nada. Deus me livre! Lagarto, lagarto, lagarto!
O Sr. Barreto de Lava: — Não se apresse. Eu já ia estabelecer a excepção: liberal na concessão da palavra aos seus colegas. Eu abusei dessa liberalidade e desse liberalismo para fazer este aparte porque fiquei, chocado com a palavra.
O Sr. Brás Gomes: — V. Ex.ª dá-me licença? «Postos na rua» é maneira de dizer. Foram convidados a sair.
O Orador: — Eu suponho que o Sr. Deputado Barreto de Lara queria saber é se eles tinham tido advogado presente...
O Sr. Barreto de Lara: — Não, não, Sr. Deputado.
O Orador: — Ah! Não?
O Orador: — E agora, se me dá licença, eu continuaria. Quais reformas, quais novas universidades! Apenas a destruição de tudo é o que se prega, é o que se deseja, é o que nos espera, se não acordarmos a tempo e agirmos rapidamente.
E o boletim dos intrépidos adolescentes, pobres adolescentes vítimas de uma organização clandestina, mas conhecida, que é a verdadeira autora deste hino revolucionário, termina com estes slogans já adultos e subversivos:
«Unidos Venceremos»
«Arranjemos forma de sair nos intervalos»
«Discutamos nas turmas»
«Lutemos unidos pelos nossos interesses»
O Sr. Cunha Araújo: — Muito bem V. Ex.ª dá-me licença que faça um breve apontamento às considerações que está a produzir, aliás com aquele brilho e coragem que o caracterizam?
O Orador: — Muito obrigado. Sr. Deputado. Eu também lamento sinceramente essa circunstância.
O burburinho verificado no passado dia 29 na Ordem dos Médicos, associação de uma das classes mais eminentes na vida do País, é a demonstração de não se tratar de desinteligências ou opiniões diversas, sempre possíveis, ou ainda mais possíveis, nos meios mais evoluídos. É uma das facetas de um programa, que, naquela Ordem como em toda a parte, infelizmente, tem os seus serventuários, os seus adeptos, os seus elementos de choque que geram a confusão, roubam as urnas, insultam pessoas respeitabilíssimas e destroem toda a espécie de conciliação possível, quando se trata, e se se trata, de divergências numa classe com particulares responsabilidades. E pode culpar-se a classe médica destes exemplos? Claro que não; mas apenas aqueles que lá se infiltram, e que de médicos apenas têm o diploma; o que francamente não chega para nos tratar da saúde, a não ser à sua moda...
Pois o partido comunista, na clandestinidade, sem dó nem piedade, parece ter-se virado agora para os rapazes e raparigas adolescentes, repito, uma vez que visa particularmente os alunos do 2.° ciclo do liceu, normalmente e pecando por excesso, dos 12 aos 17 anos! Gente, na maioria dos casos, imatura, ingénua, entusiasta e, por isso mesmo, presa mais fácil.
Quantos pais não Clamariam (ignorando os antecedentes) as suas razões para condenar o Regime, as forças da ordem ou aquelas que fossem chamadas a intervir, gerando assim um clima que, a todo o custo, e por toda a forma, urge evitar que se estabeleça!
Por isso apelo desta tribuna, em nome de todos aqueles que preferem a ordem ao caos, de inúmeros pais que se me têm dirigido, e da geração dos meus netos, ou dos filhos de outros mais jovens, para que seja implacável na confrontação que tão descaradamente é pedida ao Governo, às forças da ordem, a todos nós, inclusivamente!
Pois se Portugal precisa, para vencer esta etapa decisiva da sua existência, de todos os seus filhos, e se todos não somos de mais para o continuar, que todos nos unamos e combatamos, de todas as formas ao nosso alcance, a delapidação de uma juventude — o nosso melhor património — que, começando agora a despontar para a vida, não pode permitir-se ver envolvida em manobras e crimes que, a verificarem-se, constituiriam o maior genocídio de que haveria memória, pois visa incontestavelmente a destruição do futuro que se pretende melhorar dentro das normais e das regras que geram uma nação livre, independente, próspera e actualizada!
Mais do que um aviso, insisto, estas minhas palavras constituem um apelo a todos quantos possam combater e vencer um mal que, sendo já, infelizmente, uma realidade, só tem uma espécie de vacina: não o ignorar, enfrentá-lo corajosamente e esmagá-lo implacavelmente. E oxalá já não seja tarde!
Vozes: — Muito bem!

O orador foi muito cumprimentado.

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